terça-feira, 17 de maio de 2016

O que me fez mudar.

Nada do que acontece deixa de ter consequências. É possível que a vida que levo afete a de outras pessoas. O resultado talvez não seja maior que o borbulhar causado pela pedra atirada ao tanque, mas esse borbulhar produz outro e este um terceiro e é possível que algumas pessoas vejam que o meu modo de vida proporciona felicidade e paz e que, por sua vez, ensinem a outros o que aprenderam. S. Maugham
Não me ocorre nenhuma razão para que tenha passado tanto tempo até decidir escrever um post com este tema. O que é certo é que desde o primeiro dia em que lancei o blog me apetecia falar sobre ele (e já o tinha escrito). Faz todo o sentido, para mim, explorar um tema que acabou por mudar a forma como lido com praticamente tudo o que me rodeia e dar ainda mais sentido e valor à vida (humana ou não humana).
Vou escrever-vos sem filtros e não pretendo atacar ninguém com este post - carnívoros, vegetarianos, vegans - assim como não gosto que o façam quando sabem das minhas escolhas alimentares! Todos são livres de fazer as suas escolhas e sentir o que é melhor para vocês. Não sou mais do que ninguém por não comer animais, mas a verdade é que me sinto melhor do que era desde que deixei de o fazer. Praticamente toda a minha família e amigos são omnívoros e não é por isso que gosto menos deles. Quer sejam cépticos ou não em relação a este tema, fica na consciência e sensibilidade de cada um lê-lo :)

Nem sempre lidei bem com as perguntas que me fazem constantemente - "Não comes carne? Mas porquê? Desde sempre que comemos. Não bebes leite? Mas sabes que não é preciso matar nenhum animal para beber leite. Então e as plantas? Elas também sentem. Então o que é que tu comes? Não achas que vives num mundo cor de rosa? E se tivesses de escolher entre matar um animal e morrer à fome? Isso é ser fundamentalista." Suspirava, não respondia ou não era muito simpática e terminava rapidamente o assunto. Entendia toda esta atitude como uma crítica (e confesso que ainda estou a trabalhar neste sentido) e ficava com raiva por sentir ser alvo de gozo. Agora, não vejo as coisas tanto pelo lado da crítica mas mais pela curiosidade, pela falta de informação ou falta de conhecimento apesar de ainda reconhecer alguma inflexibilidade a este respeito. Espero não ter de ser sempre assim.

Ao princípio, apetecia-me impingir este modo de vida a tudo e a todos. Mas fui compreendendo, aos poucos, que cada pessoa tem o seu tempo e que não podemos forçar ninguém a tomar uma decisão, muito menos manipulá-la de uma forma egoísta. Por mais documentários que mostremos, por mais argumentos que utilizemos, por mais fotografias chocantes que se ponha à frente dos olhos, parte mesmo de cada pessoa fazer esse "clique". Quando mudamos temos o impulso de querer que as pessoas à nossa volta também o façam, sem compreender que talvez não seja o momento para tal. 

O que é certo é que, perante as coisas que fui sabendo, senti não podia ficar de braços cruzados. Senti-me no dever de as partilhar com quem está interessado em saber e não continuar na ignorância. Somos todos responsáveis por aquilo que fazemos e por aquilo que não fazemos. Não basta partilhar receitas, por mais bonitas que sejam, se não se perceber tudo o que nos leva a esta alimentação e modo de vida. Por isso, por onde começar?

Gradual. É assim que descrevo o processo por que passei até deixar de comer carne. Apesar de não o ter feito de um dia para o outro, considero que até foi rápido. Em menos de um ano, deixei de comer carne totalmente. Durante esse ano, ainda comia em algumas festas ou jantares - porque tinha vergonha de dizer que não à comida que tinham preparado para mim.
Assim, apercebi-me, (só) aos 18 anos, como era tão contraditório adorar animais e tê-los no meu prato. Mas lembro-me de sempre senti repulsa nos talhos e supermercados a ver bocados de animais embalados que não deveriam estar ali..

Se me perguntarem o que me fez pensar nisso mais a fundo e tomar uma decisão, não vos sei dizer em concreto. Há quem se mova pelas atrocidades e barbaridades que vê e lê. Mas eu nunca tinha visto nenhum documentário ou lido nenhum livro sobre este tema até ao ano passado, altura em que fiquei a saber exactamente o que se passa na indústria agropecuária e aí, sim, fiquei ainda mais feliz pela escolha que fiz há seis anos e a tomar uma posição ainda mais vincada no assunto. 

Os animais não existem para nosso uso pessoal nem para nos servir, apesar de nós os vermos frequentemente como máquinas - de dar leite, de dar ovos, de dar carne. Não fazemos mais do que exercer o nosso domínio e transformar uma criatura única e maravilhosa em alimento que nos satisfaz o paladar, mesmo que por breves minutos. 
Detemos os animais como propriedade. Antigamente, os animais livres representavam 99% da biomassa. Agora (10 000 anos depois) somos nós 98% da biomassa e os animais livres e selvagens apenas 2%. Roubámos a Terra aos animais para nosso próprio proveito. Desflorestar para criar pastos e cultivar soja – soja transgénica para vacas, porcos, galinhas e peixes de produção massiva. Cowspiracy
O que vos passo a contar, são pequenos excertos de documentários ou livros que fui lendo, que são importantes para quem não sabe o que se passa nesta indústria e que não quer continuar de olhos fechados. 
As galinhas poedeiras são mortas quando começam a pôr menos ovos - entre os 18 e os 20 meses. Vivem num único armazém amontoadas. Muitas perdem as suas penas e desenvolvem feridas ao esfregarem-se contra a gaiola. A sobrelotação impede que elas abram as suas asas e satisfaçam os seus instintos naturais. Vivem em gaiolas do tamanho de uma folha A4. Cada galinha põe entre 200 a 300 ovos (3 vezes mais que na natureza). Depois do primeiro ano são abatidas porque já não vão pôr a mesma quantidade no próximo ano. Passam, ainda, por um processo de debicagem, prevenindo o debicar das penas e o canibalismo entre galinhas frustradas, amontoadas em áreas superlotadas onde não conseguem estabelecer uma ordem social. Tudo isto resulta em cortes e ferimentos graves nas aves. A gaiola típica das galinhas poedeiras estimada a cada animal tem o tamanho de uma folha A4. Adaptado de Cowspiracy e do Livro "Comer Animais"
As vacas vivem, normalmente, vinte anos. As vacas leiteiras vivem apenas quatro. Morrem de exaustão e colapso pelo excesso de pesticidas e antibióticos para aumentar a produção de leite. Nesse momento, a sua carne é usada para fast food. Os vitelos são retirados das mães dois dias após o parto, amarrados pelo pescoço e mantidos restritos para impedir que os músculos se desenvolvam. Alimentados com uma dieta deficiente em ferro e água. Após quatro  meses, são abatidos. Adaptado de Cowspiracy
Por cada 450 g de peixes, outros 3kg são capturados desnecessariamente – tartarugas, golfinhos, tubarões. Se pensássemos nisto na selva, já ninguém aprovaria. Reparam apenas nos animais que são pescados para consumo humano e não reparam nos que são apanhados nas redes e nos outros que são mortos pela indústria. Adaptado de Cowspiracy e do livro Comer Animais

Continua a ser mais fácil fechar os olhos e não ver o que se passa à nossa volta porque sente-se, facilmente, a obrigação de mudar de comportamento. É mais fácil vermo-nos dentro de uma redoma e esquecermo-nos de que vivemos em comunidade com outras espécies. É mais fácil continuar a tradição e continuar a comer carne. É mais fácil achar que os animais não sofrem até chegar ao nosso prato!

Como é natural, os animais não têm os mesmos desejos que nós, não compreendem tudo aquilo que nós compreendemos. Mas, tanto eles como nós, temos alguns dos mesmos desejos - alimento, água, abrigo, privação de dor, são comuns a humanos e não humanos. Não é suficiente para pensarmos duas vezes antes de os matar?

Às vezes dizem-me que tudo isto é inocência e negação da realidade. Que não vou conseguir mudar o mundo. Eu gosto mais de lhe chamar clareza moral. E, apesar de não conseguir mudar o mundo, consigo informar quem está à minha volta. Fico contente por pensar que já fui capaz de influenciar algumas pessoas, de forma positiva, na adopção de um estilo de vida diferente. Basta pensarmos que, se nos jantares que fazemos em casa não utilizamos ingredientes de origem animal, já contribuímos para qualquer coisa! Ou simplesmente se vamos jantar fora, os nossos amigos certificam-se sempre que há um prato vegetariano e até, muitas vezes, o escolhem. Já é um contributo, certo?

Continua a haver tanta coisa para falar sobre este tema.. como o mais importante para mim é mesmo a questão ética por detrás de tudo, nem sequer me debrucei sobre a questão da saúde. De qualquer forma, confesso que me importa mais estar de consciência tranquila e saber que não matei nenhum animal nas minhas refeições do que saber se tenho ou não colesterol :)

Qualquer que seja o motivo que vos leve a mudar, façam-no. Experimentem mudar! Informem-se de como o podem e devem fazer! Pelo impacto que tem na vida, no ambiente. É agir com conhecimento e bondade para com o planeta e para com os outros. Vão perceber que vale tanto a pena, em todos os sentidos.
Se um ser sofre, não há qualquer justificação moral para não levarmos em consideração esse sofrimento. Não importa a espécie. O princípio da igualdade remete para que o sofrimento de algum ser seja equiparado ao sofrimento de qualquer outro ser. Peter Singer
É preferível continuar na ignorância sobre tudo o que acontece antes de os alimentos chegarem ao nosso prato?

Ver documentário Cowspiracy

6 comentários:

  1. Só hoje tive o prazer de conhecer o teu blogue e revejo-me em cada palavra tua. Em nome dos animais, obrigada.

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    1. Mel, obrigada eu. É tão bom saber que somos cada vez mais a preocupar-nos! :)

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  2. Olá! Vim parar aqui porque a Mariana do blog chá e girassois partilhou o link, subscrevo o que disseste posso te tratar por tu?), a minha jornada começou há pouco mais de 3 anos, tive amigos que não aceitaram simplesmente a minha escolha e também comentavam como descreveste, agora tenho pessoas à minha volta que se preocupam se tem opção vegetariana e até o meu namorado quando comemos em casa come sempre o que eu como, o que para mim é uma vitória (sei que ele não vai deixar de comer animais).
    Esta tira de BD diz o que eu sinto há muito tempo: https://www.facebook.com/tirasarmandinho/photos/a.488361671209144.113963.488356901209621/1192973217414649/?type=3

    Obrigada pela partilha!

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    1. Liliana, não conhecia a BD mas ilustra exactamente esta situação. Há cada vez mais preocupação, felizmente, por parte da família, amigos e até restaurantes a incluir menus vegetarianos. Sei que não mudamos o mundo, mas também não nos podemos acomodar por saber que não conseguimos sozinhos. Somos cada vez mais e acredito que isso tem repercussões no resto. Só o facto de nos sentirmos melhor e sabermos que não fizemos ninguém sofrer, já é tão bom. :) *

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  3. Um a um... somos cada vez mais <3
    https://www.facebook.com/ritacorreia.ilustradora/photos/a.314327989409.150667.273821809409/10154120527109410/?type=3&theater
    As tuas palavras podiam ser minhas também. Obrigada

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    1. Que bonita ilustração Rita. Acreditem que é mesmo bom ler os vossos comentários. Obrigada eu!

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