segunda-feira, 16 de maio de 2016

O que me fez mudar.

Nada do que acontece deixa de ter consequências. É possível que a vida que levo afete a de outras pessoas. O resultado talvez não seja maior que o borbulhar causado pela pedra atirada ao tanque, mas esse borbulhar produz outro e este um terceiro e é possível que algumas pessoas vejam que o meu modo de vida proporciona felicidade e paz e que, por sua vez, ensinem a outros o que aprenderam. S. Maugham
Faz todo o sentido, para mim, explorar um tema que acabou por mudar a forma como lido com praticamente tudo o que me rodeia e dar ainda mais sentido e valor à vida (humana ou não humana). Alterar a forma como nos alimentamos ultrapassa, em muito, a questão da comida. Engloba as pessoas com quem nos relacionamos, o que ouvimos, o que vestimos, o que lemos, o que vemos.
Por isso, decidi escrever para ti. Aliás, para vocês. Porque espero mesmo que este post chegue a mais pessoas. É só esse o meu objectivo neste momento - informar, desmistificar, ajudar.

Vou escrever sem filtros e não pretendo atacar ninguém com este post. Todos são livres de fazer as suas escolhas e sentir o que é melhor para vocês. Não sou mais do que ninguém por não comer animais, mas a verdade é que me sinto melhor do que era desde que deixei de o fazer. Praticamente toda a minha família e amigos são omnívoros e não é por isso que gosto menos deles. Quer sejam cépticos ou não em relação a este tema, fica na consciência e sensibilidade de cada um lê-lo.

Nem sempre lidei bem com as perguntas que me fazem constantemente - "Não comes carne? Mas porquê? Desde sempre que comemos. Não bebes leite? Mas sabes que não é preciso matar nenhum animal para beber leite. Então e as plantas? Elas também sentem. Então o que é que tu comes? Não achas que vives num mundo cor de rosa? E se tivesses de escolher entre matar um animal e morrer à fome? Isso é ser fundamentalista." Suspirava, não respondia ou não era muito simpática e terminava rapidamente o assunto. Entendia toda esta atitude como uma crítica (e confesso que ainda estou a trabalhar neste sentido) e ficava com raiva por me sentir ser alvo de gozo. Agora, não vejo as coisas tanto pelo lado da crítica mas mais pela curiosidade, pela falta de informação ou falta de conhecimento apesar de ainda reconhecer alguma inflexibilidade a este respeito. Mas sei que não vou ser sempre assim.

Ao princípio, apetecia-me impingir este modo de vida a tudo e a todos. Mas fui compreendendo, aos poucos, que cada pessoa tem o seu tempo e que não podemos forçar ninguém a tomar uma decisão, muito menos manipulá-la de uma forma egoísta. Por mais documentários que mostremos, por mais argumentos que utilizemos, por mais fotografias chocantes que se ponha à frente dos olhos, parte mesmo de cada pessoa fazer esse "clique". Quando mudamos temos o impulso de querer que as pessoas à nossa volta também o façam, sem compreender que talvez não seja o momento para tal. 

O que é certo é que, perante as coisas que fui sabendo, senti que não bastava partilhar receitas, por mais bonitas que fossem, se não se perceber as muitas razões que nos levam a mudar de estilo de vida. Então, por onde começar?

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Gradual.

É assim que descrevo o processo por que passei até deixar de comer animais. Apesar de não o ter feito de um dia para o outro, considero que foi relativamente rápido (apesar de, agora, só me arrepender de não ter sido mais cedo. Mas acredito que tinha mesmo de ser assim).

Lembro-me, desde pequenina, de sentir repulsa nos talhos e supermercados ao ver bocados de animais embalados que não deveriam estar ali. Sentia-me sempre tão triste quando lá passava. Acho que nem sequer percebia bem que eram eles que iam parar ao meu prato. Nunca ninguém me tinha explicado! Os meus pais diziam-me sempre que não se fazia mal aos animais, então claro que eu achava que não estava a prejudicar ninguém quando me alimentava. Eram os meus pais que me diziam aquilo. As pessoas em que mais confiava, e confio. Quem era eu para pensar o contrário? A verdade é que se trata de algo tão enraizado na nossa sociedade que nem se pensa nisso como algo errado.

Se me perguntarem o que me fez pensar nisso mais a fundo e tomar uma decisão, não vos sei dizer em concreto. Há quem se mova pelas atrocidades e barbaridades que vê e lê. Mas eu nunca tinha visto nenhum documentário ou lido nenhum livro sobre este tema até ao ano passado, altura em que fiquei a saber exactamente o que se passa na indústria agropecuária e aí, sim, fiquei ainda mais feliz pela escolha que fiz há seis anos e a tomar uma posição ainda mais vincada no assunto. 

Os animais não existem para nosso uso pessoal nem para nos servir, apesar de nós os vermos frequentemente como máquinas - de dar leite, de dar ovos, de dar carne. Não fazemos mais do que exercer o nosso domínio e transformar uma criatura única e maravilhosa em alimento que nos satisfaz o paladar, mesmo que por breves minutos
Detemos os animais como propriedade. Antigamente, os animais livres representavam 99% da biomassa. Agora (10 000 anos depois) somos nós 98% da biomassa e os animais livres e selvagens apenas 2%. Roubámos a Terra aos animais para nosso próprio proveito. Desflorestar para criar pastos e cultivar soja – soja transgénica para vacas, porcos, galinhas e peixes de produção massiva. Cowspiracy
Mesmo que ache melhor mover as pessoas para o vegetarianismo/veganismo pela parte bonita e não pela outra parte, acho importante contar-vos algumas coisas, que também me chocaram. 

O que vos passo a contar, são pequenos excertos de documentários ou livros que fui lendo, que são importantes para quem não sabe o que se passa nesta indústria e que não quer continuar de olhos fechados. 
As galinhas poedeiras são mortas quando começam a pôr menos ovos - entre os 18 e os 20 meses. Vivem num único armazém amontoadas. Muitas perdem as suas penas e desenvolvem feridas ao esfregarem-se contra a gaiola. A sobrelotação impede que elas abram as suas asas e satisfaçam os seus instintos naturais. Vivem em gaiolas do tamanho de uma folha A4. Cada galinha põe entre 200 a 300 ovos (3 vezes mais que na natureza). Depois do primeiro ano são abatidas porque já não vão pôr a mesma quantidade no próximo ano. Passam, ainda, por um processo de debicagem, prevenindo o debicar das penas e o canibalismo entre galinhas frustradas, amontoadas em áreas superlotadas onde não conseguem estabelecer uma ordem social. Tudo isto resulta em cortes e ferimentos graves nas aves. A gaiola típica das galinhas poedeiras estimada a cada animal tem o tamanho de uma folha A4. Adaptado de Cowspiracy e do Livro "Comer Animais"
As vacas vivem, normalmente, vinte anos. As vacas leiteiras vivem apenas quatro. Morrem de exaustão e colapso pelo excesso de pesticidas e antibióticos para aumentar a produção de leite. Nesse momento, a sua carne é usada para fast food. Os vitelos são retirados das mães dois dias após o parto, amarrados pelo pescoço e mantidos restritos para impedir que os músculos se desenvolvam. Alimentados com uma dieta deficiente em ferro e água. Após quatro  meses, são abatidos. Adaptado de Cowspiracy
Por cada 450 g de peixes, outros 3kg são capturados desnecessariamente – tartarugas, golfinhos, tubarões. Se pensássemos nisto na selva, já ninguém aprovaria. Reparam apenas nos animais que são pescados para consumo humano e não reparam nos que são apanhados nas redes e nos outros que são mortos pela indústria. Adaptado de Cowspiracy e do livro Comer Animais

É fácil fechar os olhos para não ver o que se passa à nossa volta porque sente-se, facilmente, a obrigação de mudar de comportamento. É mais fácil vermo-nos dentro de uma redoma e esquecermo-nos de que vivemos em comunidade com outras espécies. É mais fácil continuar a tradição e continuar a comer animais. É mais fácil achar que os animais não sofrem até chegar ao nosso prato.

Como é natural, os animais não têm os mesmos desejos que nós, não compreendem tudo aquilo que nós compreendemos. Mas, tanto eles como nós, temos alguns dos mesmos desejos - alimento, água, abrigo, privação de dor, são comuns a humanos e não humanos. Não é suficiente para pensarmos duas vezes antes de os matar?

Fico contente por pensar que me tenho o dever de partilhar o que sei. Com amigos, com família, com colegas de trabalho. Fico ainda mais feliz e realizada (de coração) por saber que já fui capaz de ajudar algumas pessoas e influenciá-las de forma positiva na adopção de um estilo de vida mais bonito e consciente. Por isso, quando alguém me diz que deixou de comer animais ou que reduziu o seu consumo, sinto que o meu propósito de vida é algures por aqui.

A verdade é que este tema é interminável. Para mim, o mais importante é mesmo a questão ética por detrás de tudo e por essa razão nem sequer me debrucei sobre a questão da saúde.

Mas também podia ter começado por aí e falar da minha experiência. Desde que deixei de comer carne e lacticínios, é muito (muito) raro ficar doente. Deixei de lado as alergias, as dores de cabeça, as infecções respiratórias que tinha quase todas as semanas e me obrigavam a ser medicada com antibiótico tantas vezes por mês. Agora penso que o meu corpo quase me suplicou esta mudança e agora agradece-me tanto.

Qualquer que seja o motivo que te leve a mudar, muda. 

Experimenta mudar. Vê como te sentes. Se tens medo, informa-te de como o podes e deves fazer.

Pelo impacto que tem na vida (na dos animais e na tua) e no ambiente.
É agir com conhecimento e bondade para com o planeta e para com os outros.
Vais perceber que vale tanto a pena, em todos os sentidos.
Vais descobrir um novo mundo.
Vais redescobrir-TE também.
Vais começar a questionar muitas outras coisas e isso é tão bom.

Quem somos nós para julgar outros seres como inferiores?
Não estaremos concentrados apenas em nós, a olhar para o nosso umbigo?
Não será o alimentarmo-nos de animais apenas um hábito tão enraizado na sociedade que nem sequer o queremos questionar?
Se um ser sofre, não há qualquer justificação moral para não levarmos em consideração esse sofrimento. Não importa a espécie. O princípio da igualdade remete para que o sofrimento de algum ser seja equiparado ao sofrimento de qualquer outro ser. Peter Singer

6 comentários:

  1. Só hoje tive o prazer de conhecer o teu blogue e revejo-me em cada palavra tua. Em nome dos animais, obrigada.

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    1. Mel, obrigada eu. É tão bom saber que somos cada vez mais a preocupar-nos! :)

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  2. Olá! Vim parar aqui porque a Mariana do blog chá e girassois partilhou o link, subscrevo o que disseste posso te tratar por tu?), a minha jornada começou há pouco mais de 3 anos, tive amigos que não aceitaram simplesmente a minha escolha e também comentavam como descreveste, agora tenho pessoas à minha volta que se preocupam se tem opção vegetariana e até o meu namorado quando comemos em casa come sempre o que eu como, o que para mim é uma vitória (sei que ele não vai deixar de comer animais).
    Esta tira de BD diz o que eu sinto há muito tempo: https://www.facebook.com/tirasarmandinho/photos/a.488361671209144.113963.488356901209621/1192973217414649/?type=3

    Obrigada pela partilha!

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    1. Liliana, não conhecia a BD mas ilustra exactamente esta situação. Há cada vez mais preocupação, felizmente, por parte da família, amigos e até restaurantes a incluir menus vegetarianos. Sei que não mudamos o mundo, mas também não nos podemos acomodar por saber que não conseguimos sozinhos. Somos cada vez mais e acredito que isso tem repercussões no resto. Só o facto de nos sentirmos melhor e sabermos que não fizemos ninguém sofrer, já é tão bom. :) *

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  3. Um a um... somos cada vez mais <3
    https://www.facebook.com/ritacorreia.ilustradora/photos/a.314327989409.150667.273821809409/10154120527109410/?type=3&theater
    As tuas palavras podiam ser minhas também. Obrigada

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    1. Que bonita ilustração Rita. Acreditem que é mesmo bom ler os vossos comentários. Obrigada eu!

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